Eu e a Arte

Atualizado: 7 de dez. de 2021


Este é um texto pertencente à categoria Arte deste blog. Isso significa que é uma categoria mais livre. Aqui falarei sobre Arte e tudo o que for possível ao redor desse mundo. E para começar nada melhor do que falar como eu comecei na Arte. Além de contar um pouco mais, também falarei sobre uns dos melhores professores que tive e sua influência sobre meus estudos e formação, e da minha amizade com ele. Obrigado por estar aqui e boa leitura!



Primeiras influências...

Talvez, nem minha tia saiba, mas ela foi a minha primeira referência para o desenho (agora ela sabe rs). Lourdes Martins. Tecnicamente ela não sabe desenhar, mas me lembro bem de quando eu era criança que sentávamos e ela fazia lindos desenhos abstratos. Puxava grandes linhas que uma hora pareciam asas de borboletas, em outra, uma espécie de obra do Niemeyer, e ia preenchendo cada abertura com traços finos, traços mais grossos, curvas, círculos, até se tornar um desenho "completo", lindos desenhos. Qualquer diz pedirei que faça alguns desses e publicarei aqui.


Depois tive outras referências e inspirações. Na escola, por exemplo, entre o terceiro e quarto ano, me lembro de dois colegas que desenhavam muito bem — E eu ainda não desenhava nada —. Eles desenhavam todos os dias os personagens dos Cavaleiros do Zodíaco. Para mim aquilo era impressionante, desenhar todas aquelas armas e armaduras, e ainda sem copiar, porque eles tinham todos os traços na mente.


Eu desenhava antes de saber que sabia ;)

O desenho não é dom. Minha tia ou qualquer outra pessoa pode aprender a desenhar, até mesmo você (caso ainda não saiba). O desenho depende de técnica e prática.


Hoje não me orgulho do que irei relatar, mas aconteceu e é peça importante que, só mais tarde, eu descobri o porquê que eu já sabia desenhar antes de começar a desenhar. Por volta do meu segundo ano na escola recebi um bilhete da professora que dizia que eu só poderia entrar na sala de aula novamente se naquele bilhete houvesse uma assinatura do responsável, naquela ocasião, havia de ser a assinatura da minha avó. Então, eu com muito medo dela repassar o bilhete para o meu pai, pensei no que eu poderia fazer.


Lembrei de um resultado de exame que ela guardava na gaveta (assinado!). Então peguei esse exame e coloquei bem ao lado do bilhete. Primeiro fiquei observando... observando... Depois tomei coragem e fui fazendo letra por letra, bem devagar e com muita atenção.


Resumo: a professora olhou o bilhete assinado e perguntou o que minha avó havia dito. Falei que havia me dado algumas broncas, é claro! A professora guardou o bilhete e eu pude assistir à aula normalmente. Depois de alguns anos contei para minha avó e ela mandou o bordão clássico dela: "Seu cachorro" (rs!)


Não me orgulho da cópia da assinatura, mas foi a primeira vez que eu simplesmente observando as formas, consegui copiá-las.


Depois de algum tempo, de tanto ver meus colegas desenhar, eu queria desenhar também. Nem que fosse desenhar por cima! E foi assim mesmo que comecei. Meus primeiros desenhos foram todos por cima. E eu achava um máximo! Passei bastante tempo desenhando por cima. Aos poucos fui me arriscando a desenhar sem só observando. Mas os resultados eram pouco satisfatórios. Até que passei a tentar desenhar os rostos dos bonecos, os primeiros ficaram ruins, mas os outros... é, os outros também; e assim fui indo.


Depois de muito insistir, ficaram bons os desenhos dos rostos dos bonecos. Em seguida passei a fazer os corpos dos bonecos, sem as mãos e os pés (eram muito difíceis).


Os anos foram passando e eu melhorando cada vez mais. Já conseguia copiar desenhos mais complexos. Eu já até fazia alguns desenhos em paredes, pintava personagens e até arriscava desenhos de fotografias (esses ficavam feios — Meu Deus! —).


Conforme o tempo foi passando, foi aprimorando meus traços. Ainda sem a qualidade que eu gostaria, mas já conseguia copiar desenhos de revista de tatuagens e até conseguia cobrar alguma coisa por eles. Vejam alguns deles.

1 - Primeiros desenhos de rosto para tatuagens ("sem técnica").

2 - Primeiros desenhos de rosto para tatuagens ("sem técnica").

Foi quando...


O desenho virou coisa séria, virou profissão.

Eu já estava com os meus dezessete anos, treinava futebol em um time de Guarulhos. Um dia depois do treino quando cheguei em casa recebi um recado da minha mãe que era para eu retornar a ligação ao meu pai. Retornei. Ele me ofereceu um curso de desenho. Um curso de dois níveis.


Um curso de desenho com um excelente professor.

Me matriculei no Senac, Av. Voluntários da Pátria, Santana - SP, curso de desenho nível I e II. O meu primeiro dia de aula foi fantástico!


Para começar, uma das paredes da sala era de vidro, onde ficavam expostos os trabalhos dos professores Manuel (o meu) e Maria (professora do período da tarde). Me lembro perfeitamente do desenho exposto pelo meu professor na vitrine.


Manual Grau (como ele assinava) tinha nessa parede-vitrine, um desenho feito somente a grafite, era o desenho de uma moça, pele branca e cabelos lisos com mexas, ela estava meio de perfil e com a cabeça levemente virada para o lado esquerdo, com o queixo por cima dos ombros, e os olhos voltados para quem a desenhava (ou fotografava). Pensei "É este nível que eu quero chegar". Mas no nível I era só para aprendemos sobre os materiais (como usar cada um), aprendemos também alguns conceitos, formas, perspectivas entre outros.


Quem era o Professor?


Manuel Grau Fontova, nascido na Espanha, era desenhista, pintor e escultor de formação; premiado em São Paulo pelo Conselho Estadual de Cultura, em 1979. Na época que o conheci tinha 78 anos.

Na minha opinião, ser professor é: ter em mãos a mais importante profissão. Infelizmente há professores que não são bons, porque sabem muito do assunto, mas não sabem passá-lo de forma eficiente; e há professores que não sabem muito sobre o assunto, mas o pouco que sabem conseguem passar muito bem. Nenhuma dessas opções era o caso desse professor Manuel Grau Fontova. Ele conhecia muito e sabia passar esse conhecimento muito bem. O professor trabalhava na área desde 1940. Teve uma formação incrível, em vez de aluno, foi um aprendiz. Passou muitos anos ajudando seu mestre.


O nível I e II do curso de desenho.

Aprendi muito no nível I. Conceitos que, sem dúvidas, os aplico até hoje.

Desenhar é como fazer um bolo. Simples assim. Existe uma receita e você pode aprender.

Aprendidos os conceitos no nível I, era hora do nível II. Aprender a usar luz e sombra, técnicas para desenhar rostos, enfim... Então eu já poderia fazer tudo o que quisesse? Calma, não foi assim :( (rs)


Dominar técnicas requer prática. No caso do desenho ou pintura, você precisa dominar a técnica de fazer e também dominar o manuseio dos materiais. No desenho nível II, o professo colocou uma bola em cima da mesa, a bola devia ter uns 20cm, uma cor puxada para o bege (um pouco desbotado). Ligou o refletor e ficamos uma aula inteira estudando como a luz e sombra se comportava naquele objeto. "luz direta, luz indireta"; "sombra dura, sombra suave", e também as sombras refletidas. Eu achei tudo aquilo muito bom. Depois da bola, passamos para o vidro, depois para o alumínio, e assim fomos passando por alguns materiais até chegar em... rosto? Nada! Até chegarmos em corpos. Aprendemos a estruturar corpos. E só depois... os rostos.


Qualquer curso, na verdade, não é para lhe formar "O Profissional". O curso é como uma passagem de trem, quem escolhe para onde, até quando, e onde parar... é você. Em outras palavras, qualquer que seja sua área, se você quer ser bom no que escolheu para fazer, você precisa que estudar além dos cursos.


Era isso que alguns colegas do curso e eu fazíamos. O professor percebendo isso, passou a disponibilizar referências do seu arquivo pessoal (de um livro espanhol muito bom), eram referências de músculos, ossos e até cartilagens; veja algumas abaixo:




Muito além do nível I e II

Eu aprendia e treinava todas as técnicas que foram ensinadas, ia me tornando um desenhista profissional. Foi quando o Senac informou que, infelizmente (ou felizmente), não haveria alunos suficientes para formar a turma para o próximo curso que seria desenho em cores.


Foi aí que tudo começou a melhorar e melhorar muito (por isso o "felizmente" acima). Quando o professor deu essa notícia, foi aí que ele anunciou que dava aulas particulares. Não havia dito antes porque não queria competir com a escola, e também por uma clara questão de ética. Muitos foram os alunos que manifestaram o interesse em continuar as aulas particulares, mas eu fui o único a continuar.

As aulas particulares

A casa do professor era uma verdadeira galeria de arte. Quadros ainda por concluir em cavaletes, quadros prontos no chão, quadros prontos na parede, e esculturas. A esposa do professor também é pintora, uma ótima pintura. Ela é especialista em florais, florais holandeses . A esta altura eu já desenhara muito bem. Me sentia orgulhoso em saber que, graças as técnicas aprendidas, muito esforço e prática, não havia nada que eu não pudesse desenhar. Então o professor, vendo a minha vontade de pintar, sugeriu que eu começasse a ter aulas de pinturas.


Faço uma pergunta para você: qual foi o meu primeiro quadro que eu pintei? Uma paisagem? Uma garrafa ou um corpo nu? Nada disso! Meu primeiro quadro foi o Círculo Cromático. E detalhe, comecei a partir das cores primeiras, depois as secundárias, terciárias e assim por diante.

Ele dizia: "Se você quer ser um dos melhores, não pule etapas".

Passado alguns anos, eu já sabia pintar. O desenho já não tinha mais segredo. Eu podia desenhar o que eu quisesse. É verdade que a pintura é mais complexa, mas também é verdade que, quanto mais você desenhar, melhor você pintará.


Passei a visitar o professor nos finais de semana. Fazia alguns passeios com ele pela Praça da República aos domingos (para quem não conhece, a Praça da República fica tomada por artistas que pintam e/ou vendem suas obras lá mesmo). Conheci alguns artistas da praça. Artistas que cobravam pela sua arte R$ 300,00 e artistas que cobravam R$ 40.000,00. É isso mesmo, quarenta mil reais por um quadro ali bem na minha frente.


Eu me sentia mais do que aluno, me sentia um amigo do professor e de sua esposa. Passávamos muito tempo conversando sobre arte, livros, curiosidades e sobre Pablo Picasso, o professor era fã!


O professor era tão dedicado, mesmo durante as conversas (fora de aula), quando eu fazia alguma pergunta, ele pedia um momento, subia em seu ateliê e descia com um ou mais livros. Respondia a questão com base no livro e ainda emprestava-me o livro.

Os materiais que ganhei.

Eu tive muitos momentos de orgulho por estudar com aquele professor. E me sentia muito vaidoso em alguns momentos, em especial, em um momento que ganhei um presente fantástico, um livro de 1906, isso mesmo, um livro que completou este ano (2021) 115 anos. Ele me disse que eu era o aluno mais aplicado, o aluno que tinha o maior interesse em continuar, e por isso merecia aquele livro. O livro tinha sido do mestre da esposa dele. Em espanhol, o livro conta a história da arte desde o tempo das cavernas até o ano de seu lançamento. Minha reação foi de surpresa, felicidade e sem saber o que dizer (rs). A cada ano que passava eu sentia mais admiração pelo artista e professor que ele era. Ganhei livros, catálogos e recortes de jornais, tudo da sua biblioteca particular.


Infelizmente, em 2011, aos 87 anos, faleceu Manuel Grau Fontova. Sinto sua falta, mas continuo estudando e trabalhando, e espero um dia superar o mestre. Sei que isso é possível, sei que conseguirei. 


Hoje.

Eu seguir o conselho do professor, estudei os softwares necessários para desenho no computador, além de um bom conselho, era o que precisava ser feito. fiz vários cursos livres, também cursei design na faculdade e hoje sou pós-graduado em Marketing Digital e Comunicação Empresarial.


Nunca deixei a arte de lado e nunca a deixarei. Pretendo, um dia, poder viver exclusivamente da arte.

Agora veja algumas fotos de livros e referências que eu ganhei do professor, até mesmo recortes de jornais. Aliás, alguns dos livros que eu comprei, foram por causa desses recortes de jornais. 

Abaixo, um desenho e seu processo, esboço para futuro quadros, e pintura a óleo.

  • Livro de 115 anos (completados em 2021) que ganhei do professor. Este livro conta a história da arte, começa com o período de que o homem ainda vivia nas cavernas e vai até o ano de seu lançamento, em 1906.


  • Conversávamos sobre os altos valores que eram cobrados nos quadros, sobre a desvalorização do pintor tradicional e também sobre falsificação. Foi quando ele me deu esse jornal. E foi por causa desse jornal que comprei o livro; (veja algumas páginas na sequência). O livro é fantástico.


  • Este catálogo traz o nome do professor, Manual Grau Fontova, entre os premiados, em 1979, com uma escultura "O Jornaleiro", adquirida pelo Governo de São Paulo. Neste catálogo também temos a premiação da Grande Medalha de Ouro para o pintor e designer José Canato, com a obra Os Sete Obras de Misericórdia. E a Pequena Medalha de Ouro ao pintor Gilberto Geraldo, com a obra A Cigana.