Eu e a Arte

Atualizado: 12 de Nov de 2018


Este é um texto pertencente à categoria Arte deste blog. Isso significa que é uma categoria mais livre. Aqui falarei sobre Arte e tudo o que for possível ao redor desse mundo. E para começar nada melhor do que falar como eu comecei na Arte. Além de contar um pouco mais, também falarei sobre uns dos melhores professores que tive e sua influência sobre meus estudos e formação, e da minha amizade com ele. Obrigado por estar aqui e boa leitura!



Primeiras influências

Talvez, nem minha tia saiba, mas ela foi a minha primeira referência para o desenho (agora ela sabe). Ela não sabe desenhar, nem copiando, nem de cabeça, e talvez nem por cima. Mas me lembro de quando eu ainda criança, ela sentava comigo e fazia lindos desenhos abstratos. Puxava grandes linhas que uma hora pareciam asas de borboletas, em outras uma espécie de obra do Niemeyer, e ia preenchendo cada abertura até ficar um desenho ficar 'completo', eram muito lindos.


Depois tive outras referências e inspirações, claro. Na escola, por exemplo, entre o terceiro e quarto ano, lembro-me de dois colegas que desenhavam muito bem. Eu ainda não desenhava nada. Eles desenhavam quase todos os dias os personagens dos Cavaleiros do Zodíaco. Aquilo para mim era impressionante, desenhar todas aquelas armas e armaduras, e ainda sem copiar, tudo feito de cabeça!


Eu desenhava antes de saber que sabia ;)

O desenho não é dom. Minha tia ou qualquer pessoa que você esteja pensando agora pode aprender a desenhar, até mesmo você. O desenho depende de técnica e prática. A quem consiga desenhar sem a primeira, somente com a segunda. O fato que pode ajudar muito é que tipo de influência você é ou fora submetido(a) quando criança.


Pode não ser bonito o que eu vou relatar agora, mas aconteceu e é peça importante que, só mais tarde, eu descobri o porquê que já sabia desenhar sem desenhar. Por volta do meu segundo ano na escola recebi um bilhete de minha professora no qual eu só poderia entrar na sala de aula novamente se nesse bilhete houvesse uma assinatura do responsável, naquela ocasião, havia de ser da minha avó. Então, eu com muito medo dela repassar isso para o meu pai, pensei o que eu poderia fazer. Lembrei de um resultado de exame que ela guardava (assinado!). Então peguei esse exame e coloquei bem do lado do bilhete. Primeiro fiquei observando... Depois tomei coragem e fui fazendo letra por letra, bem devagar e com muita atenção. Resumo: a professora olhou a assinatura e perguntou o que minha avó falou. Falei que havia me dado algumas broncas, é claro.


Depois de algum tempo, de tanto ver meus colegas desenhar, eu precisava desenhar também. Nem que se fosse por cima! E foi assim mesmo que comecei. Meus primeiros desenhos foram todos por cima. E eu achava um máximo. Passei bastante tempo desenhando por cima. Aos poucos fui me arriscando a desenhar sem ser por cima. Mas os resultados eram pouco satisfatórios. Até que passei a tentar desenhar as cabeças dos bonecos, os primeiros ficaram ruins, os segundos também... e assim fui indo. Depois de muito insistir, ficaram bons os desenhos das cabeças. Em seguida passei a fazer os corpos dos bonecos, sem as mãos e os pés; quando começamos, mãos e pés são horríveis (rs). 

Os anos foram passando e eu melhorando cada vez mais. Já conseguia copiar desenhos mais complexos. Eu fazia alguns desenhos em paredes, pintava personagens e até arriscava desenhos de fotografias (esses ficavam feios). Mas mesmo sem as técnicas corretas, meus primeiros desenhos de rostos que ficaram mais ou menos foram para tatuagens, veja alguns deles. 

1 - Primeiros desenhos de rosto (sem técnica) para tatuagens

2 - Primeiros desenhos de rosto (sem técnica) para tatuagens

Foi quando...


O desenho virou coisa séria, virou profissão

Eu já estava com os meus dezessete anos, treinava futebol em um time de Guarulhos. Quando cheguei do treino recebi um recado para eu retornar a ligação ao meu pai. Ele me ofereceu um curso de desenho. Um curso em dois níveis, com possibilidade de continuação.


Um bom curso com um excelente professor

Me matriculei no Senac, de Santana - SP, curso de desenho nível I e II. O meu primeiro dia de aula foi fantástico! Para começar, a parede da sala em que eu estudava era de vidro, e ficavam expostos os trabalhos dos professores Manuel (o meu) e Maria (professora do período da tarde). Me lembro perfeitamente do desenho exposto. Meu professor tinha nessa parede-vitrine, um desenho feito somente a grafite, era um busto de uma moça, pele branca e cabelos lisos com mexas; ela estava meio de perfil e com a cabeça levemente virada, com o queixo por cima dos ombros, e os olhos voltados para quem a desenhava (ou fotografava). Era naquele nível que eu queria chegar, porém, o desenho nível I só para aprendermos os conceitos das formas, perspectivas entre outros.


Quem era o Professor?


Manuel Grau Fontova, nascido na Espanha, era desenhista, pintor e escultor de formação; premiado em São Paulo pelo Conselho Estadual de Cultura, em 1979. Na época que o conheci tinha 78 anos.

Na minha opinião, ser professor é: ter em mãos a mais importante profissão. Infelizmente há professores que não são bons, porque sabem muito do assunto, mas não sabem passá-lo de forma eficiente; e há professores que não sabem muito sobre o assunto, mas o pouco que sabem conseguem passar muito bem. Nenhuma dessas opções era o caso desse professor Manuel Grau Fontova. Ele conhecia muito e sabia passar esse conhecimento muito bem. O professor trabalhava na área desde 1940. Teve uma formação incrível, em vez de aluno, foi um aprendiz. Passou muitos anos ajudando seu mestre.


O nível I e II

Aprendi muito no nível I. Conceitos que, sem dúvidas, os aplico até hoje.

Desenhar é como fazer um bolo. Simples assim. Existe uma receita e você pode aprender.

Aprendidos os conceitos no nível I, era hora do nível II. Aprender a usar luz e sombra, técnicas para desenhar rostos, em fim... Então eu já poderia fazer tudo o que quisesse?Calma, não foi assim :( (rs)


Dominar técnicas requer prática. No caso do desenho ou pintura, você precisa dominar a técnica de fazer e também dominar o manuseio dos materiais. No desenho nível II, o professo colocou uma bola em cima da mesa, a bola devia ter uns 20cm, uma cor puxada para o bege (bem cru). Ligou o refletor e ficamos uma aula inteira estudando como a luz e sombra se comportava naquele objeto. "luz direta, luz indireta"; "sombra dura, sombra suave", e também as sombras refletidas. Eu achei tudo aquilo muito bom. Depois da bola, passamos para o vidro, depois para o alumínio, e assim fomos passando por alguns materiais até chegar em... rosto? Nada! Até chegar em corpos. Aprendemos a estruturar corpos. E só depois... os rostos.


Qualquer curso, na verdade, não é para formar você O Profissional. O curso é como uma passagem de trem, quem escolhe para onde, até quando, e onde parar... é você. Em outras palavras, qualquer que seja sua área, se você quer ser bom no que escolheu para fazer, você tem que estuda além dos cursos.


Era isso que alguns colegas do curso e eu fazíamos. O professor percebendo isso, passou a disponibilizar referências do seu arquivo pessoal (de um livro espanhol), eram referências de músculos, ossos e até cartilagens; veja algumas abaixo.




Muito além do nível I e II

Eu aprendia e treinava todas as técnicas que foram ensinadas , ia me tornando um desenhista. Foi quando o Senac informou que, infelizmente (ou felizmente), não haveria alunos suficientes para formar a turma para o próximo curso que seria desenho em cores. Foi aí que tudo começou a melhorar e melhorar muito. Quando o professor deu essa notícia, foi quando ele anunciou que dava aulas particulares. Não havia dito antes porque não queria competir com a escola, e também por uma clara questão de ética. Muitos foram os alunos que manifestaram o interesse, mas eu fui o único a continuar.

As aulas particulares

A casa do professor era uma verdadeira galeria de arte. Quadros ainda por fazer em cavaletes, quadros prontos no chão, na parede, e esculturas. A esposa do professor também é pintora, uma ótima pintura. Ela é especialista em florais, florais holandeses. A esta altura eu já desenhara muito bem. Me sentia orgulhoso em saber que, graças as técnicas aprendidas, muito esforço e prática, não havia nada que eu não pudesse desenhar. Então o professor, vendo a minha vontade de pintar, sugeriu que eu começasse a ter aulas de pinturas. Uma pergunta: qual foi o meu primeiro quadro? Uma paisagem? Uma garrafa ou um corpo nu? Nada disso! Meu primeiro quadro foi o Círculo Cromático. E detalhe, comecei a partir das cores primeiras, depois as secundárias, terciárias e assim por diante.

Ele dizia: "Se você quer ser um dos melhores, não pule etapas".

Passado alguns anos, eu já sabia pintar. O desenho já não tinha mais segredo. Eu podia desenhar o que eu quisesse. É verdade que a pintura é mais complexa, mas também é verdade que, quanto mais você desenhar, melhor você pintará.


Passei a visitar o professor nos finais de semana. Fazia alguns passeios com ele pela Praça da República aos domingos (para quem não conhece, a praça fica tomada por artistas que pintam e/ou vendem suas obras lá mesmo). Conheci alguns artistas da praça. Artistas que cobravam pela sua arte R$ 300,00 e artistas que cobravam R$ 40.000,00.


Eu me sentia mais do que aluno, me sentia um amigo do professor e de sua esposa. Passávamos muito tempo conversando sobre arte, livros, curiosidades e sobre Pablo Picasso, o professor era fã! O professor era tão dedicado, mesmo durante as conversas (fora de aula), quando eu fazia alguma pergunta, ele pedia um momento, subia em seu ateliê e descia com um ou mais livros. Respondia a questão com base no livro e ainda emprestá-me o livro.

Os materiais que ganhei

Eu tive muitos momentos de orgulho por estudar com aquele professor. E me sentia muito vaidoso em alguns momentos, em especial, em um momento que ganhei um presente fantástico, um livro de 1906, isso mesmo, um livro que este ano completa (ou completou) 112 anos. Ele me disse que eu era o aluno mais aplicado, o aluno que tinha o maior interesse em continuar, e por isso merecia aquele livro. O livro tinha sido do mestre da esposa dele. Em espanhol, o livro conta a história da arte desde o tempo das cavernas até o ano de seu lançamento. Minha reação foi de surpresa, felicidade e sem saber o que dizer (rs). A cada ano que passava eu sentia mais admiração pelo artista e professor que ele era. Ganhei livros, catálogos e recortes de jornal, tudo da sua biblioteca particular.


Hoje

Eu seguir o conselho do professor, estudei os softwares necessários para desenho no computador, além de um bom conselho, era o que precisava ser feito. fiz vários cursos livres, também cursei design na faculdade, hoje faço pós-graduação. Ainda com muito esforço, luta e também conquistas, trabalho e estudo com o que mais gosto. Nunca deixei a arte de lado e nunca a deixarei. Pretendo, um dia, poder viver exclusivamente da arte. Infelizmente, em 2011, aos 87 anos, faleceu Manuel Grau Fontova. Sinto sua falta, mas continuo estudando e trabalhando, e espero um dia superar o mestre. Sei que isso é possível, sei que conseguirei. 

Agora veja algumas fotos de livros e referências que eu ganhei do professor, até mesmo recortes de jornais. Aliás, alguns dos livros que eu comprei, foram por causa desses recortes de jornais. Vamos começar com alguns dos meus.

Abaixo, um desenho e seu processo, esboço para futuro quadros, e pintura a óleo.

  • Livro de 112 anos que ganhei do professor. Este livro conta a história da arte, começa com o período de que o homem ainda vivia nas cavernas e vai até o ano de seu lançamento, em 1906.


  • Conversávamos sobre os altos valores que eram cobrados nos quadros, sobre a desvalorização do pintor tradicional e também sobre falsificação. Foi quando ele me deu esse jornal. E foi por causa desse jornal que comprei o livro; (veja algumas páinas na sequencia). O livro é fantástico.


  • Este catálogo traz o nome dele entre os premiados, em 1979, com uma escultura "O Jornaleiro", adquirida pelo Governo de São Paulo. Neste catálogo ainda tem a premiação da Grande Medalha de Ouro para o pintor e designer José Canato, com a obra Os Sete Obras de Misericórdia. E a Pequena Medalha de Ouro ao pintor Gilberto Geraldo, com a obra A Cigana.


  • Este foi mais um presente, e também muito especial, já que se trata da biografia de Pablo Picasso, no qual o professor era um admirador.


  • Essas fotos faziam parte de um brinde que meu professor recebia quinzenalmente, vinha junto com uma revista (ou fascículo) que ele era assinante. E sempre que chegava, ele me dava. Dizia que era para eu treinar luz e sombra, que eram fotografias muito bem tiradas.


F I M

Muito obrigado pelo seu tempo de leitura.

0 visualização
  • Página Robson Martins
  • Instagram Robson Martins
  • Hangouts
  • Pinterest Robson Martins
  • Google+ Robson Martins

COMO POSSO LHE AJUDAR HOJE? 

FAÇA PARTE DA MINHA LISTA DE CONTATOS